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ATÉ 30 DE JANEIRO, NO MUSEU MARÍTIMO DE ÍLHAVO
Tudo num barco
Na Sala de Exposições do Museu Marítimo de Ílhavo prossegue a exposição temporária "Tudo num Barco - Património Marítimo e Cultura Popular", um projecto expositivo apoiado na expressividade de um conjunto de modelos de embarcações e numa série de imagens da colecção do mítico Museu de Arte Popular.
Nesta exposição destaque para a Proa de moliceiro com respectiva decoração, em tamanho natural pertencente ao espólio inicial do Museu, adquirida pela Comissão Organizadora do Museu Regional de Ílhavo (constituída em 1925).
A peça foi executada em 1935, por José Luciano Garrido, de Salreu, e foi pintada por António Almeida (O Soeco), de Avanca. A bombordo da proa pode ler-se “BÃO INDO QUE EU CÁ BOU” e a estibordo “Mestre LUÇIANO GARRIDO Me Fes”. De salientar a decoração dos golfiões, com rosto do galã e namorada e a decoração com vaso e planta florida na base da bica.
O que leva um “homem do mar” a construir uma miniatura do barco onde fez uma boa parte da sua vida? E o que impele um artesão que ao mar nunca foi a construir modelos de barcos com um rigor de formas que, muitas vezes, excede a perícia do mestre ou do piloto, que do seu barco ainda retém as medidas, as formas e os medos?
O modelismo naval, ou a arte de miniaturizar embarcações - seja para fins aparentemente ingénuos ligados ao acto emotivo de invocar por imitação à escala, seja por intenção erudita destinada a legitimar um saber navalista com certeza mais próximo da engenharia do que da arte -, é uma expressão contundente da cultura marítima, hoje em notória expansão. Mais discutível, porém, será ver em toda e qualquer forma de modelismo naval uma expressão de “cultura popular”.
Tudo num Barco é um projecto expositivo através do qual se pretendem questionar estes e outros sentidos da cultura marítima; em especial as relações entre miniaturismo naval e cultura popular e, de certo modo, o próprio diálogo entre Natureza e Cultura.
A ideia de exposição que aqui se propõe participa de um projecto museológico atento à importância dos imaginários etnográficos na cultura do mar. Desse modo, o discurso de Tudo num Barco apoia-se na expressividade de um conjunto de modelos de embarcações (aparentemente puros) e numa série de imagens (visivelmente fabricadas) que remetem para a memória contextual desses mesmos objectos: a colecção do mítico Museu de Arte Popular, que o Estado Novo inventou para oficializar a sua concepção nacionalista, tradicionalista e reaccionária de “cultura popular”. Museu resultante da Exposição do Mundo Português, que em 1940 serviu ao regime para celebrar a fundação da nacionalidade, a restauração e o império, marcou de forma indelével e pejorativa o próprio imaginário de “cultura popular”.
Embora mais ruralista do que maritimista, o Museu de Arte Popular fixou a sua galeria de tipos étnicos de um “povo autêntico” que nunca existiu. Fê-lo por meio de uma narrativa ilustrada por artefactos “regionais”, animados por uma poética folclorista, ainda que encenada por artistas modernos. Nesta alegoria estética sobre a história de um povo-nação, o discurso oficial inscreveu referências várias a uma ideia pura e unívoca da cultura do mar que persiste em diversos territórios sociais.
O segmento de colecção que aqui se expõe e as imagens documentais que escolhemos para suturar os objectos permitirão concluir que a “cultura popular” sempre habitou as comunidades marítimas, mas jamais da forma unívoca que o estereótipo de nacionalização da cultura popular procurou fixar. Uma cultura marítima aberta e plural exige aos museus marítimos um questionar permanente dos significados do que tomamos como património.